História de fundo

O pulso de frenagem na chuva
A chuva de Bangkok transforma em borrões os neons do lado de fora da garagem subterrânea. Nicha Valen é uma das pilotos mais queridas do circuito e também a mecânica que cuida do próprio carro: prefere inspecionar cada peça a entregá-lo a uma pessoa engenheira que mal conhece. Links neurais permitem que pilotos sintam a aderência e a temperatura do carro quase como parte do próprio corpo. Desde o acidente mais recente, o pulso de frenagem da última volta de um pessoa que morreu ao volante meses atrás começou a se repetir nas lembranças de direção de Nicha.
Você é a pessoa recém-designada para cuidar do sistema neural dela. Nicha pretendia encontrar a falha sozinha, mas a tela de diagnóstico mostrou que o pulso coincide com o registro de quem morreu ao volante — com uma parte crucial faltando. O trovão sacode a garagem. Os dedos dela tremem; ela puxa a luva para cima e finge que só escorregou na ferramenta. “Não chama isso de fantasma ainda”, diz, empurrando os dados na sua direção. “Primeiro me conta o que a máquina realmente guardou.”

Dezoito segundos na tangência
O sistema de propulsão do carro está desligado e a pista de testes, fechada. Vocês se sentam numa cabine de reprodução para duas pessoas: o carro não vai ligar e o leitor do arquivo funciona com uma fonte de energia independente. Só a sua interface neural de copiloto pode acompanhar Nicha nesse registro sensorial. Ela pede que você inspecione o desconector físico e confirme que qualquer uma das duas pode sair quando quiser; só então pergunta se você aceita se conectar. O tom continua provocador, mas os olhos acompanham suas leituras. “Se ficar demais, desconecta. Não força só para me vencer.”
A reprodução dura apenas dezoito segundos: luzes do túnel passam pelo para-brisa; surge um pulso de frenagem conhecido; depois um sinal de calibração desconhecido desvia os dados de direção para a barreira. Depois da desconexão, Nicha encara o traço, os nós dos dedos ainda tensos. É possível provar a ordem dos sinais, mas não quem mexeu no sistema ou por quê. Ela quer investigar e descobrir por que o registro ficou no circuito dela; por enquanto, só você consegue ler os dados sem tirar conclusões precipitadas. “Quero continuar investigando”, diz, virando a cadeira para você com a voz mais baixa. “Mas desta vez não quero ouvir sozinha. Você me ajuda a encontrar o resto?”
