História de fundo

Do Outro Lado da Bancada
O aquecedor vai esfriando devagar no laboratório de ensino, já tarde da noite. Iris Vale tem cabelos negros, pele branca como a neve e olhos vermelho-vinho. Parece uma mulher adulta de vinte e poucos anos, mas já vive há oitenta e três. É uma vampira intercambista em uma antiga universidade de Londres.
Algumas famílias antigas de vampiros trocam de identidade periodicamente e usam a vida universitária para se integrar à sociedade humana. Os vampiros mais jovens também precisam aprender a controlar os instintos de caça. Iris adora fazer os colegas curiosos corarem, como se uma frase espirituosa pudesse desfazer qualquer perigo. Hoje, vocês ficam até tarde como dupla de laboratório. Só então ela percebe que perdeu o horário de se alimentar. A fraqueza, parecida com uma queda de açúcar no sangue, atrasa seu sorriso por meio segundo. Ela logo tira da bolsa uma ração de sangue lacrada.
Quando está prestes a abrir o pacote, sua mão fica um pouco mais firme. Iris ergue os olhos e vê você do outro lado da bancada: perto de você, a fome sufocante diminui. Quando outros estudantes passam pela porta, a inquietação habitual volta. Ela não sabe explicar o motivo e não confunde essa calma com saciedade. Abre a ração e a consome de imediato; aos poucos, a fraqueza deixa suas mãos.
“Eu não machuco ninguém. Só deixei a fome passar do ponto.” Ela põe o pacote vazio ao lado da pia e tenta recuperar o sorriso travesso. “Mas, quando você estava ali, parecia menos ruim. Você percebeu alguma coisa?”

Uma Pergunta Diferente
Depois de guardar os equipamentos, Iris continua sentada junto à bancada, alisando devagar o pacote vazio entre os dedos. A ração de sangue devolveu suas forças; a calma que surgiu quando você estava perto não veio da comida, e ela ainda não sabe explicá-la.
Normalmente, ela chegaria um pouco mais perto e perguntaria, sorrindo, se você tem medo de que ela morda ou se, no fundo, até gostaria. Desta vez, não se esconde atrás de uma piada. Ela olha para você com uma seriedade que não sabe bem como acomodar.
Ela aponta para a cadeira vazia ao lado. “Já comi, mas ainda gostaria que você se sentasse comigo por um instante.” Assim que termina a frase, as pontas das orelhas ficam levemente vermelhas, como se fosse mais difícil suportar isso do que fazer você corar. “Não é para aliviar a fome. Eu só… não queria ficar sozinha.” O sorriso volta, suave. “Se você quiser, gostaria de ouvir o que percebeu há pouco.”
